Histórias de Moradores de Paulínia

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade de Paulínia.


História do Morador: Vicente Elmo Alexandre Brasil
Local: São Paulo
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O objetivo da vida não é dinheiro

Sinopse

Meu nome é Vicente Elmo Alexandre Brasil. Nasci em Fortaleza, Estado do Ceará, em 4 de novembro de 1933. Estou entre 69 e 70 anos de idade.

História:

FAMILIA

O meu avô materno era Pedro Alexandre de Sousa, e a avó materna, Maria Alexandre de Sousa. Os avós paternos eram Rita - a minha avó paterna, que eu não conheci; eles morreram na virada do século. Nem meus pai conheceram meus avós paternos. Então o nome dela era Rita, e o meu avô acredito ser Juvêncio, eu não tenho certeza. O meu avô materno era descendente de português, e meus avós paternos eram descendentes de espanhóis. Meu pai é Vicente Alves Brasil, e minha mãe, Amália Alexandre Brasil. Você vê que o Alexandre é sobrenome.

Meu pai é do Rio Grande do Norte - a família do meu pai era do Rio Grande do Norte. E minha mãe é do Ceará mesmo. Minha mãe inclusive foi colega de escola da Rachel de Queiroz, colega de sentar assim na mesma cadeira da Rachel de Queiroz, lá em Fortaleza. Meu pai era comerciante e tinha fazenda no interior do Ceará. Minha mãe era dona de casa naquela época. Eles tiveram 13 filhos. Dos quais 11 ainda continuam vivos. A atividade do meu pai era difícil para segurar a família. Era difícil. Eu me lembro que eu, já depois de formado, e já trabalhando na Petrobras, eu era o sexto dos 13. Quer dizer, estava no meio da turma. Eu me lembro que na época, para a gente comprar carro - isso foi no início da década de 60, por aí , a gente tinha que juntar dinheiro e comprar à vista. Não é como hoje, que você praticamente compra quase sem nada. E quando eu estava como o dinheiro, solteiro, engenheiro recém-formado, estava na Bahia, e juntando o dinheiro para comprar o carro, aí uma das minhas irmãs me liga que a situação não estava muito boa. Porque lá o Ceará, você conhece: época de seca, não-seca. E que precisava de minha ajuda. Aí eu tive que mandar o dinheiro do carro. Tive não, mandei com prazer. Meu pai era comerciante e fazendeiro.

CIDADE/CASA

Numa cidade do interior, a nossa casa, naquela época, era saquelas casas imensas - começava numa rua, e o quintal terminava na rua de trás. Os custos não eram como hoje, porque era cidade do interior, as coisas vinham da fazenda, o custo de escola muito pequeno.

EDUCAÇÃO

Os custos dos meus pais começaram a crescer quando se precisou mandar o pessoal para Fortaleza para fazer colégio, depois faculdade. Porque quase todos formados. Todos foram estudar em Fortaleza. A gente morava no centro ali de Fortaleza. Quando os mais velhos começaram a precisar do colégio, aí inicialmente mandou para a casa dos meus avós maternos, que moravam em Fortaleza. Foi onde eu nasci. E depois, a família muito grande, cada vez, cada ano aparecia um precisando ir para Fortaleza. Aí no fim eles alugaram uma casa em Fortaleza, minha mãe foi para lá e meu pai ficou na cidade do interior chamada Iguatu. E nessa época o meu segundo irmão já tinha terminado o científico e ficou auxiliando ele nos negócios. O único dos homens que não se formou foi esse que ficou auxiliando meu pai.

FAMILIA/COSTUMES

A família é muito grande, família católica, então na época era comum escolher alguém para ir para seminário, para coisas desse tipo.

EDUCAÇÃO

Eu fiz meu primário na cidade de Iguatu, e com dez anos de idade eu não fui para o seminário, mas fui para um Colégio Marista em Apipucos, lá em Recife, que a função era preparar garotos para depois serem irmãos maristas. Então eu fiquei interno dos 10 aos 14 anos em Recife, lá em Apicucos, sem ir em casa, sem tirar férias. Fiquei dos 10 aos 14 anos.

FAMILIA

O meu contato com a família era o meu terceiro irmão, que na época já estudava medicina em Recife e ia me visitar de vez em quando. E meus pais também, uma vez ou outra, iam visitar. Basta dizer que quando eu saí para tirar as minhas primeiras férias, quer dizer, eram férias, eu saí para voltar. Eu não sabia mais nome de primo direito, de tia, tinha me esquecido de tudo. Mas eu não quis voltar. Aí resolvi ficar no Ceará, nessa altura eu estava terminando o ginásio.

EDUCAÇÃO

Eu fiz o científico no Liceu do Ceará, lá em Fortaleza. E sempre fui um bom aluno de matemática. E naquela época era o seguinte: gostava de matemática, vai ser engenheiro; gostava de biologia, vai ser médico; e não gostava de nenhum dos dois, vai ser advogado. A história era mais ou menos essa naquela época. Não tinha essa gama de carreiras, de especializações, que tem hoje. Então eu fui fazer engenharia, que na época não tinha em Fortaleza também. Não tinha escola de engenharia em Fortaleza. Aí fui fazer em Recife, voltei para Recife. Então vocês vejam o seguinte: que desde os 10 anos de idade, tirando os 3 anos do científico, eu morei fora de casa, eu morei sempre fora de casa.

Da Escola de Engenharia, eu gostei, porque era muito bacana. Naquela época era por ano. Os colegas que iniciavam praticamente todos terminavam juntos.

No quinto ano fizemos uma excursão à Europa de três meses, muito bacana. Vendendo rifa de carro na rua, essas coisas todas de estudante. E conseguimos fazer uma programação muito bacana. Fomos para a Inglaterra, para a França, para a Alemanha.

Era um grupo da faculdade, isso já no último ano. Pegamos as férias do meio do ano, emendamos um pouquinho. Isso foi em 1957. Foi o ano em que eu me formei. Aí rodamos, ficamos por dois meses e pouco, quase três meses na Europa. Inclusive visitando fábricas, visitando, gozado, visitando refinaria. Chegamos a visitar refinarias na Europa. Fomos de navio, o navio Alcântara. Eu me lembro bem. Segunda classe. Fomos direto para a Inglaterra. A viagem durou 11, 12 dias. Meus colegas da engenharia vinham do Nordeste. Vamos chamar, a minha turma devia ter uns 40, 50 alunos, mais ou menos. A metade praticamente ali de Recife, de Pernambuco. Vamos chamar um pouco menos da metade. E depois uma preponderância muito grande dos Estados vizinhos: Paraíba, gente do Ceará. Quer dizer, era mais do Nordeste. A engenharia mais concorrida era a civil. Todo mundo fazia civil. E naquela época já estava começando a aparecer engenharia mecânica e engenharia elétrica. E era possível fazer simultâneo, então alguns dos meus colegas se formaram em engenharia civil e elétrica, civil e mecânica. Mas a engenharia civil servia para tudo. Quer dizer, a gente se formava em civil, mas depois no trabalho, quando a gente ia para o mercado de trabalho, mais da metade caía fora da engenharia civil. O meu pai mandava a mesada para mim. Com 13 filhos! É por isso que quando ele precisou, aquilo dentro de mim: tem que ajudar.

TRABALHO

Meu primeiro trabalho foi na Petrobras. Então, quando eu voltei da Europa, dessa excursão, aí naquela época todo mundo começou, era muito fácil pegar emprego naquela época, não era tão difícil. Mas a maioria ia trabalhar em Denocs, órgão do governo.

INGRESSO NA PETROBRAS

Apareceu um pessoal da Petrobras fazendo aqueles concursos para os cursos de especialização. E como na época havia poucas escolas de engenharia química, eles aceitavam o engenheiro civil, tanto para refino de petróleo, quanto para perfuração, aceitava para qualquer coisa. A gente, no concurso, colocava as opções lá. Então eu fiz o concurso, passei e vim para o Rio de Janeiro fazer o curso de refinação em 1958.

Como estagiário. Já remunerado, mas só estudando. O curso foi beleza. A maior dificuldade para mim é que eu não dominava o inglês direito, e os professores eram todos americanos. Então era difícil. Então era uma matéria que eu já não tinha estudado na escola, que era engenharia química. Os meus colegas todos optaram, quer dizer, todos os meus colegas de Recife que fizeram concurso para a Petrobras optaram por fazer perfuração e produção, porque era na Bahia o curso. Aí é, vamos chamar, eram cadeiras, eram assuntos mais afins com o que a gente estudava na engenharia civil, que era a hidrodinâmica, hidráulica, termodinâmica. Quer dizer, era um negócio mais, já a engenharia química não, era engenharia química. Então eu tive essa dificuldade, primeiro de estudar uma matéria que eu não dominava, e dada por professores americanos. E os testes vinham em inglês. Era muito difícil.

Os testes vinham redigidos em inglês. A gente fazia em português, mas vinha em inglês. A percentagem de professores americanos na escola, eu acho que titulares, olha, menos um ou dois, eram todos americanos, eram praticamente todos americanos.

Aí, terminado o curso, antes de terminar o curso, a gente foi na Bahia, foi visitar - na época só tinha a refinaria de Mataripe e a refinaria de Cubatão. Eram as duas únicas existentes na Petrobrás. Aí nós fomos à Bahia, ficamos uma temporada na Bahia, durante mais de um mês lá na refinaria de Mataripe. Depois nós fizemos uma excursão até a refinaria de Cubatão, passando por Tremembé, que na época tinha pesquisas sobre industrialização do xisto, lá em Tremembé. Isso mais tarde foi cancelado e foi transferido para o Paraná, lá para Irati. Aí, quando terminou o curso, vinham aquelas necessidades. Os diversos órgãos mais ou menos diziam o que precisavam, e entrava também muito o que o aluno queria. E o pessoal do Nordeste em geral ia para a Bahia. Então eu fui para a Bahia, para a refinaria de Mataripe.

Lá na Bahia a experiência foi grande.

UNIDADE REFINARIA DE MATARIPE (RLAM)

Quando eu cheguei lá na Bahia, a refinaria era muito isolada de qualquer comunidade, porque Mataripe fica a uns 45 minutos de Salvador, de carro. A estrada não era totalmente pavimentada na época. E na época de chuva o terreno lá vira barro, esse barro escorregadio. E era difícil. Então a gente vivia muito isolada. E pensava assim: “O que é que eu vim fazer aqui?” Mas paciência, eu gostava. Eu gosto de praia, gosto daquele clima do Nordeste. E a refinaria então tinha uma vila junto da refinaria, e o pessoal morava tudo na vila. Eu, como era solteiro, tinha um hotel, fui morar no hotel. Então era fácil, a gente subia, descia, ia almoçar em casa, essas facilidades. Mas também, qualquer coisa que acontecia na refinaria, a gente descia correndo. Me lembro que era uma refinaria, tinha muita emergência antigamente lá.

SEGURANÇA DO TRABALHO

A refinaria de Mataripe tinha um problema na área de utilidades, que o tratamento de água tinha defeitos, não era bem adequado, e de vez em quando o sistema de utilidades entrava em pane. Furava tudo de caldeira, coisas desse tipo. Aí a refinaria era uma emergência geral. Aí descia todo mundo de madrugada. Às vezes o cara descia do jeito que estava mesmo. Dava para consertar o que estava quebrado. Aí começava tudo de novo. Então não tinha aquelas facilidades que hoje a gente tem nessas refinarias aqui do Sul. Mesmo lá, hoje já é uma refinaria moderna, com todas as facilidades.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Tinha coisas muito boas em Mataripe, o pessoal era muito unido, porque a gente tinha muito tempo disponível. Porque a gente acabava o trabalho, e em cinco minutos estava em casa. Cinco, dez minutos, estava em casa. A gente ia para o clube jogar bola, jogar baralho. Quer dizer, cada um fazia as suas coisas. Para muita gente, muito engenheiro recém-casado, mesmo do Sul, escolhia ir para lá por causa da economia que tinha. Porque tinha casa de graça. E às vezes eu acho que a refinaria dava até os móveis, talher, dava tudo. Naquela época, final da década de 50, início da década de 60, então tinha aquelas facilidades todas, porque para uma pessoa ser recém-casada, ele ia para lá e, com o dinheiro que ganhava, ficava comprando um apartamento aqui no Rio, ou então um apartamento em São Paulo. Aí, quando o negócio estava já regularizado e pago, aí eles pediam para vir para cá. Ia muita gente do Sul.

SALÁRIO/REMUNERAÇÃO

O salário era maior ainda, porque além do salário normal de todos, vamos chamar, os componentes do salário, a gente ainda recebia um salário adicional de 20%, por ir trabalhar num local distante, sem muito recursos. Esse adicional não era de insalubridade, chamava adicional regional. Então, por exemplo, o pessoal que ia para a Amazônia, eu acho que chegava até a 50%. Então, quanto mais distante fosse o local, assim, quanto mais distante de centros adiantados, vamos chamar, da civilização, então, além das coisas comuns, eu acho que em alguns lugares devia se ganhar esse adicional de insalubridade. Lá a gente ganhava o de periculosidade, mas esse era comum a todas as refinarias, independente do local onde ela ficasse.

SEGURANÇA DO TRABALHO

Você pode morrer intoxicado, você pode morrer queimado, você pode morrer de explosão. Quer dizer, tem muito risco, a refinaria tem risco. E já teve vários casos assim. Explosão, intoxicado, você pode cair lá de cima. Quer dizer, é uma coisa, hoje, muito incomum. Mesmo antigamente não era muito comum esse tipo de coisa. Em Mataripe mesmo aconteceu na época em que eu estava lá. Quando pega, não respeita a profissão - vai engenheiro, vai peão, vai quem estiver por perto. Agora, só que com o desenvolvimento da tecnologia, com o próprio treinamento melhor, mais forte que se dá para os empregados em geral. Quer dizer, isso na Petrobras é muito raro. Por exemplo, eu trabalhei 15 anos na Replan e nunca tive um acidente assim envolvendo empregados da Replan, nunca teve. Mas, vamos chamar, nos primórdios, as coisas já eram mais, vamos chamar, arriscadas, não se tinha essa tecnologia. A Petrobras também não era uma potência financeira tão grande quanto é hoje. Então era um pouco diferente, nos primórdios, mas logo depois a coisa foi.

Hospital, socorro, tinha na região, não na Petrobras. Na vila de Mataripe tinha o hospital mantido pela Petrobras, que esses primeiros-socorros, de queimados, principalmente, era dado lá. Aí uma coisa mais complicada, depois levava para a Bahia, para Salvador.

TRANSPORTE

O transporte era sempre feito por terra, todo transporte por terra. Não tinha avião. Helicóptero, mas eu não me recordo de ter precisado de helicóptero. Mas avião não tem nem como pousar lá. Já era a Petrobras. Quando eu entrei na Petrobras em 1958, em janeiro de 1958, já era Petrobras.

CASAMENTO

Quando eu estava na refinaria de Mataripe eu casei, eu casei na Bahia.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

É o seguinte: eu me formei em 1957, aí o curso de refinação foi todo o ano de 1958 e os três primeiros meses de 1959. Então mais ou menos em maio de 1959 nós terminamos o curso, aí eu fui para a refinaria de Mataripe, fiquei até 1970. Quer dizer, fiquei praticamente 11 anos lá. Lá em Mataripe eu comecei como engenheiro comum, trabalhei de turno.

UNIDADE REFINARIA DE MATARIPE (RLAM)

Porque na época que eu cheguei lá na refinaria de Mataripe, era outra coisa também que atraía para irem trabalhar em Mataripe na época que fui, é que ela estava sendo ampliada, mas era ampliada mesmo. Então o pessoal dizia o seguinte: “A refinaria é um botão, e nós estamos colocando um paletó no botão.” Quer dizer, o que ela ia ser depois de ampliada, comparado com o que era, era outra refinaria. Inclusive unidades novíssimas. Primeiro craque catalítico da Petrobrás, coisas desse tipo. Então eu trabalhei algum tempo de turno, participando com o pessoal a colocar toda essas unidades em funcionamento. Então isso levou tempo, porque realmente foi uma ampliação muito grande, lá tudo é difícil.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Mas aí eu trabalhei de turno, depois eu, assim, em nível de direção, eu comecei trabalhando dirigindo a parte de utilidades. Aí me convidaram para chefiar a parte de utilidades. Então eu fiquei algum tempo chefiando a parte de utilidades. E aí aconteceu o fato que mais me marcou lá, que foi a revolução de 1964. Eu estava lá. Como eu disse, eu fui em 1959 para lá e fiquei até 1970.

RELAÇÕES COM O GOVERNO

Aí em 1964 teve aquela revolução, o que para a refinaria foi muito traumático, porque lá era considerado um núcleo, vamos chamar, comunista - na época era comunismo -, muito forte. Porque um pouco antes da revolução, a Petrobras, a própria direção da Petrobrás, já era um pouco influenciada por sindicatos muito fortes. Um deles era o de lá. E meio esquerdista, porque o governo João Goulart, aquele negócio todo, né? Então os militares, quando eles atuaram em 1964, era aquele negócio, eles iam pegando informações de tudo quanto é lugar. Eles disseram: “Olha, ali é um foco!” Então eles inclusive fizeram intervenção lá. Foi o coronel para lá para fazer intervenção, foi demitida muita gente. Então é um trauma realmente muito grande.

A causa da demissão, e que todos eram, vamos chamar, comunistas, todo mundo lá é comunista. Então a revolução foi feita para evitar que o comunismo assumisse no Brasil, e todos aqueles que por uma ótica de quem fez o processo de intervenção, ou era comunista, ou era simpatizante do comunismo, ou coisa desse tipo, eles tiravam. Inclusive o superintendente da época foi preso. Essas coisas todas. O negócio não foi muito fácil. Foram os graduados, foi peão, foi de tudo. Foi, porque nessa época da revolução, o pessoal que galgava cargos, o pessoal que tinha cargos de direção na empresa - muitos deles, segundo a ótica militar - foi indicado pelos sindicatos, pelo governo esquerdista, que estava tudo dentro de um contexto de implantar o comunismo no país. Então, todo mundo tinha carteirinha de comunista; eu mesmo respondi inquérito. Eu respondi inquérito, tive que ir à polícia do Exército. Me acusaram de que eu não era comunista, mas ajudava os comunistas, ajudava isso. Quer dizer, era aquele negócio. Não, verdade não é. Eu nunca olhei para esse negócio se é ou não é. Se eu tenho um empregado, que é muito bom, e pelo fato dele ser muito bom você dá suporte a ele, e depois você é acusado de que dá suporte a empregados comunistas. Eu não vou perguntar se o cara é comunista ou não. Não me interessa se o cara é petista ou se não é petista. Na Petrobras a gente não olha esse aspecto. Pelo menos, durante todo o tempo em que eu trabalhei, eu trabalhei com gente que era do PT, que não tolerava o PT. Isso não entrava muito na minha ótica na hora de colocar as pessoas nos lugares certos. Eu acredito que hoje também continue assim.

Critérios técnicos. É aquele que tem o talento técnico, aquele que tem o talento gerencial, que sabe lidar com os conflitos humanos. Você não vai pegar uma pessoa que não sabe lidar com conflitos humanos para administrar uma refinaria cheia de problemas. O fato, para mim, mais traumático durante os anos em que eu fiquei em Mataripe, foi essa intervenção militar. Não porque eu fosse contra, nem fosse a favor. Eu, incluído na minha ótica, eu achava que o negócio estava, que o país estava um pouco conturbado. Agora, a partir do momento em que uma força se impõe, a força se impõe. Agora, cabe àqueles, vamos chamar, que nem é dum lado, nem é do outro, tentar o equilíbrio. Então nós tentamos salvar muitos amigos da demissão. Salvamos. Eu cheguei a ver a lista.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Porque nessa época eu fui nomeado superintendente de produção da refinaria, logo depois da revolução, que era o segundo cargo da refinaria. Tem o cargo de superintendente geral, e tem o cargo de superintendente de produção, que é aquele que coordena e administra toda a área de produção. E eu era muito novo, eu tinha, na época de 1964, 31 anos, eu era muito novo ainda. Mas degola um, degola outro, degola, além dos que pediram transferência aqui para o Sul, aí no fim me colocaram. E você vendo aquele negócio. Daí a pouco: “Demite!” E vem aquela lista quilométrica para você demitir. E uns você: “Muito bem, esse agitava e tal, não sei o quê.” Mas você olhava: “Mas esse!” Então, nós tentamos.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Na época, o superintendente, logo depois da revolução, foi nomeado inclusive um colega meu. Porque da minha turma fomos quatro lá para Mataripe. Dessa turma que terminou o curso de refinação em 1959, fomos quatro para Mataripe. E um dos quatro é o João Batista Skinier. Que ele foi nomeado superintendente, e eu fui nomeado superintendente de produção. Então nós tínhamos estudado juntos. Apesar dele ser uns 5 ou 6 anos mais velho do que eu, mas era uma cara até bom porque era mais maduro. Eu ainda era muito, vamos chamar, juvenil. Ele não, mais amadurecido. Ele disse: “Não, não é assim e tal.” Então ele teve um papel importantíssimo, o Skinier, em tentar, e pegava avião, vinha aqui para o Rio: “Olha, não é assim, não pode!” Quer dizer, salvou muita gente. A mim mesmo e ele. Ele amenizou, porque teve uma época que foi dada uma ordem para me demitir. Ele depois me contou: “Veio uma ordem para te demitir e eu fui lá.” Numa hora dessa a turma não olha esse aspecto, e isso foi um trauma, aliás, toda guerra, toda revolução, todo trauma - isso é uma cirurgia - causa injustiças terríveis. Não tem como. Tinha líderes sindicais que viviam insuflando o pessoal para aquilo. “Vamos derrubar o governo!” Então a gente sentia. Mas isso aí, a gente falava entre nós, só. Porque também vem uma lista daquela e você não pode, tem que cumprir, porque se não cumprir daqui a pouco tira e põe outro. Mas eu acho que a administração da época, no caso o Skinier, foi uma dádiva estar ele naquele momento, porque depois ele passou para um general. Aí apareceu um general. A revolução foi em 1º de abril, lá para setembro ele passou o comando da refinaria para um general que foi nomeado. O general chega e tal, até boa pessoa. Mas até chegar, até se acostumar com as pessoas, até confiar num, confiar noutro, isso leva um tempo. Ariovaldo Pereira Lima. Ele já é falecido. Depois ele chegou a ser presidente da BR. O companheiro de trabalho que vinha para resolver as listas lá era o João Batista Skinier. Esse depois veio aqui para o Rio, ele chegou a ser superintendente da refinaria de Capuava, hoje é aposentado e mora em São Paulo. É um dos representantes, se eu não me engano, da Petros, alguma coisa assim.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO

Tem que ter hierarquia, a hierarquia pesa, tem que ter hierarquia, porque é uma empresa muito grande. É uma empresa em que a pessoa tem que fazer aquilo que se manda. Agora, ela é uma hierarquia muito democrata. Quer dizer, porque como, principalmente na área que eu trabalhei, que é uma área técnica, muito técnica, que é a refinação de petróleo. Então você, para tomar uma decisão, você sempre reúne os especialistas do problema envolvido, o pessoal discute, discute, discute, e aí quando você toma a decisão, toma uma decisão abalizada. Quer dizer, tem que ter hierarquia, tem que ter comando, a coisa não funciona sem, em lugar nenhum do mundo.

CASAMENTO

Eu me casei em Salvador. Na época eu trabalhava em Mataripe. Aí eu me casei em Salvador, com uma baiana. Nós casamos e eu morei em Mataripe até 1970. Casei em 1963. Eu conheci minha esposa em uma daquelas festas no próprio clube da refinaria. Porque um dos tios dela é engenheiro da área de perfuração e produção. Então na vila morava não só o pessoal da refinaria, como moravam também empregados, vamos chamar, da região de produção da Bahia, que era o pessoal que trabalhava naqueles campos de petróleo de São Francisco do Conde, de Candeias, aquela região ali. E um dos tios dela morava lá. Então ela ia de vez em quando, e tinha festa no clube, então eu conheci aí.

FAMÍLIA

Do meu casamento tive três filhos, que estão vivos ainda, todos três baianos, duas mulheres e um rapaz. As duas mulheres são casadas, moram na Bahia, e o rapaz mora em Campinas, em São Paulo.

CIDADE

Porque Mataripe ficava num local onde tinha muitos campos de petróleo, que é no município de São Francisco do Conde.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Depois de Mataripe, quando foi 1970, a Petrobras na época tinha como refinaria - aí então já tinha crescido um pouco: já tinha Mataripe; já tinha Cubatão; já tinha Duque de Caxias, aqui no Rio; tinha recém terminado a de Belo Horizonte, que é Gabriel Passos, a de Canoas, que é do Rio Grande do Sul. Aí resolveram fazer a maior refinaria da Petrobras, que o local escolhido foi Paulínia, ali perto de Campinas. E eu me interessei em ir para lá, me interessei, e aí no fim foi formalizado o convite. Eu, na época, era superintendente de produção de Mataripe. Muito bem. E para ir para Campinas não existia esse cargo de superintendente de produção, porque era uma obra ainda, era a obra da construção lá de Paulínia. E tinha uma divisão, porque a estrutura na época da Petrobras, em refinaria, era superintendente, superintendente de produção, depois vinham as divisões. Então tinha a divisão de pré-operação, que seria a pessoa responsável por treinar empregados, ver material, testar os equipamentos, para quando a refinaria ficasse pronta, colocar aquilo em funcionamento. Eu fui chefiar essa divisão. Agora: “E por que você foi?” É o destino, sei lá, eu me interessei, era uma coisa nova, era uma região desenvolvida. Antes eu tinha ido a Campinas, adorei a cidade, aquela região.

UNIDADE REFINARIA DE PAULÍNIA (REPLAN)

Era um equipamento moderno, era a primeira vez que a Petrobras estava fazendo uma refinaria com a instrumentação toda eletrônica. O tamanho da refinaria era imenso. Então a gente se interessa também por esses desafios. Então eu fui em 1970, no caso eu fui morar em Campinas. E a minha função era essa: era preparar aquilo que estava sendo construído, para você colocar em funcionamento. Então você tem que montar os quadros, aquela estrutura. Então isso foi feito; eu fui em setembro de 1970. Foi um trabalho rápido, porque essa refinaria foi construída de uma maneira muito rápida. É a tal da “refinaria dos mil dias”. Em mil dias fizeram uma refinaria. Então decorreu o ano de 1971 todo, e no início de 1972 nós partimos a refinaria. Então foi um negócio! A gente trabalhava sábado, e não tinha horário, essas coisas todas. Então foi a fase que eu mais gostei, eu me realizei muito nessa fase. Porque é como você ver uma criança pequenininha, crescendo, vai ficando grande, você vai formando. E a refinaria era muito bonita. E a obra era um ritmo, assim, tão acelerado, que às vezes eu vinha muito no Rio para tratar de assuntos. Então às vezes vinha, ficava uma semana fora, e quando voltava, você: “Não, mas isso aqui não tinha quando eu saí!” Mas mesmo sendo no local mais desenvolvido no país, na época, não tinha telefone na refinaria. Se você queria falar, era por rádio. Era aquele poeiral danado.

CIDADE

Você, para ir para Campinas, tinha aquela estrada horrorosa, tinha que passar por dentro de Paulínia. Não é como hoje, que tem pista dupla. O clima eu adorava. Eu gosto de clima frio, então o clima é um pouco mais frio. Uma cidade moderníssima e muito rica, porque Campinas é uma cidade muito rica. E com isso também o que se faz de amizades novas, de gente que você conhece, e é muito bacana.

SALÁRIO/REMUNERAÇÃO

Então na prática eu saí de um cargo mais alto para um cargo menor. E ainda perdi aqueles 20%. Porque eu ganhava os 20%, que eu falei no início, de adicional regional lá em Mataripe, e indo para Campinas eu não tinha isso. Periculosidade permaneceu.

CASA

Eu fiz amizade fora da petrobrás também. Porque, quando eu fui morar em Capinas, eu aluguei uma casa num bairro muito bom lá, o bairro do Cambuí. E na época eram só casas nesse bairro, praticamente. Hoje é só prédio.

FAMÍLIA

E a babá que a gente tinha levado da Bahia gostava muito de sair, e eu tinha três filhos pequenos. E ela gostava de à tarde pegar os três e sair um pouquinho. E ficou conhecendo uma família perto da nossa casa que tinha também três filhos mais ou menos da idade dos nossos. Então a amizade começou babá com babá, os meninos com os meninos, depois mãe com mãe. E coincidência, o marido, ou melhor, o pai das crianças, cearense e médico. Então com isso, cearense ficou fácil, e médico para mim, então eu fiquei conhecendo muitos médicos em Campinas. Então fiz uma amizade fora da Petrobras. Porque isso aí é uma coisa que eu sempre desenvolvia. Eu dizia: “A parte social eu quero fora da Petrobras.”

LAZER

Porque senão você sai e fica só aquela conversa de coisinha de refinaria. Eu me reunia, de vez em quando saía com a turma da Petrobras, era aniversário na casa de um, de outro. Mas a minha ligação social mesmo, até clube, essas coisas, eu fiz toda em torno dos amigos, desses médicos cearenses. E depois eu entrei para sócio de um clube que poucos na Petrobras entraram, que era a Hípica de Campinas. A maioria entrou no Círculo Militar. E ali saía eu e os amigos. Então nós fizemos uma amizade um pouco fora. Porque em Mataripe me marcou muito isso: você trabalhava na refinaria, junto da refinaria uma vila, que nos problemas da refinaria iam para a vila, os problemas da vila iam para a refinaria, era um pouquinho de fofoquinha - isso é normal -, hierarquia. Eu digo: “Ah, isso eu não quero mais!” Mas fazendo as amizades com o pessoal, porque o pessoal que foi para lá é praticamente todo de fora, então o pessoal precisava de unir também. Então fui um trabalho maravilhoso, realmente, e era bacana. Porque o presidente da Petrobras na época, você não imagina, era o Geisel. E o Geisel ia, a menina dos olhos dele era aquela construção, aquela refinaria. E ele sentava na mesa. E eu ainda novinho ainda, era relativamente novo. Eu falava, ele me chamava, e ele com aquela autoridade imperial dele. Que ele era uma pessoa que eu nunca pretendia nem colocar a mão no ombro dele. Mantinha distância.

Mas ele virava para mim: “Brasil, e você, o que tem a dizer?” Eu gostava dessas coisas, era muito bacana.

UNIDADE REFINARIA DE PAULÍNIA (Replan)

Aí, quando foi no início de 1972 - acho que foi em maio. Em maio foi a inauguração, mas em janeiro ou fevereiro nós colocamos a refinaria de Paulínia para operar. Foi onde se deu um dos fatos que eu sempre lembro quando eu conto essas histórias da Petrobras. Quando foi em maio de 1972, então foi marcada a inauguração da refinaria, a maior refinaria, aquele negócio. Presidente da República, Medici. Naquela época o Medici, durão. Presidente da Petrobras, Geisel. Então o sistema de segurança para a visita foi algo monstruoso. Não podia passar avião. Era um negócio. Por causa do Medici, o Medici foi à inauguração da refinaria. A refinaria já estava funcionando, porque o normal da Petrobras é inaugurar a suas obras já funcionando. Ela não inaugura para depois ver o que dá, não. A gente termina obra. Esse é o normal da Petrobras, sempre foi assim, e acredito que continue assim, que continua assim. Então o pessoal termina a obra, esse pessoal da pré-operação, que eu falo, faz a limpeza dos equipamentos, posicionamentos e tal. E põe para operar, já está operando tudo direitinho, não tem mais problema nenhum. Aí você inaugura. Esse que é o certo. Aí nós partimos, no início do ano de 1972, e marcamos a inauguração para maio, 12 de maio. Então era aquele negócio, a refinaria operando e estava tudo bacana. E na noite anterior, dia 11 de maio, me lembro que tinha um jantar em Campinas, no melhor restaurante de Campinas. O pessoal já tinha ido para lá, o Ueki, um bocado de gente que já tinha ido e se antecipado, porque no dia seguinte vinha o presidente da República. Aí marcar um jantar no restaurante. E eu estava me aprontado para ir para o jantar, aí o telefone toca: “Brasil!” “Que foi?” “A refinaria parou de estalo! Emergência!” “Nossa Senhora!” Isso de noite, dia 11, a inauguração dia 12, já irreversível, o esquema montado, e que esquema. Basta dizer que na Anhanguera não podia passar carro, não podia passar avião. Era um negócio. Perto do Medici. Aí eu disse: “Está bom, eu vou para aí!” Aí liguei para uns dois ou três e fomos para a refinaria. E o pessoal esperando no restaurante. Aí começaram a ver que eu não chegava, ligaram: “Nossa!” Sabe o que é você chegar num negócio imenso, de noite, aquele silêncio, tudo parado, bem escuro, o pessoal desanimado. “E aí, como é que vai ser inaugurar com esse negócio assim?” Terrível. E a gente vai para lá, vem para cá e anda e tal. E o motivo que tinha parado era o seguinte: numa refinaria tem aqueles tanques de petróleo imensos, aí você tem as bombas que pegam do tanque de petróleo e mandam para a unidade. Então isso é um sistema contínuo, a bomba está mandando o tempo todo o petróleo. Lá dentro você está separando aquilo que no futuro vai ser gasolina, vai ser diesel, coisa e tal. Então é um processo como um todo. E essas bombas, lá na Replan, na época da inauguração, eram todas movidas a motor elétrico, e uma por uma o motor elétrico foi pifando. Pifou uma, pifou outra, pifou, pifou, pifou tudo assim em seguida. Aí não tinha como você tirar o petróleo para mandar para unidade. “E agora?” Aí nós descobrimos, eu chamei, tinha um cara que era a minha segunda pessoa, era o chefe da operação, um engenheiro muito bom. Ele foi um dos projetistas da refinaria, então ele conhecia os detalhes, principalmente os detalhes dessa área de escoamento, o que tira daqui e leva para lá. Ele foi um dos que participaram do projeto. Ele se encantou com o projeto, foi para lá, e era o responsável pela parte operacional. Era o Ziegfried. Eu virei para ele e falei: “Ô Zig, a gente não pode fazer nada?” “Só tem uma alternativa.” “E qual é a alternativa?” Nós temos uma bomba que a função dela é, quando vai iniciar a partida, é uma bomba menor, que ela pega o petróleo do tanque, manda para a unidade e fica circulando. A função dela é só isso. É a bomba de circulação. Só que ela não tem capacidade para operar na carga. Aí eu digo: “Dá para operar com carga menor?” “Dá!” “Então é isso aí que nós vamos fazer!” “Mas não vai dar tempo, que isso aí leva um tempo.” “Olha, é o seguinte: nós vamos colocar essa bomba e amanhã de manhã tem que estar operando!” Varamos a noite. Varamos a noite lá. Só sei que quando o Medici chegou, quando o Geisel chegou, estava operando. Não estava com toda a sua capacidade, mas estava operando. Ninguém reclamou. A turma sabia, quem ficou sabendo: “Não, é isso aí!” As autoridades, vamos chamar, federais, nem souberam de nada. O pessoal da Petrobras a gente avisou. O Geisel sabia. Mas nós dissemos, o negócio está assim, mas está operando, enquanto a gente arranja ou repara os motores que foram queimados. Mas, deu tudo certo. Uma inauguração muito bonita, muito bacana. Foi muita festa. Mas festa assim mais, vamos chamar, todo mundo, é discurso, inauguração de placa, aí um almoço melhorado para todo mundo. Essas são as festas da Petrobras.

TRAJETÓRIA PROFISSONAL

Bom, nessa refinaria de Paulínia, a Replan, que eu chamo de Replan, eu trabalhei três vezes. Então, nessa primeira fase eu trabalhei, aí quando a refinaria entrou em operação, eu fui nomeado superintendente de produção, que era o tal cargo que eu já tinha exercido antes na refinaria de Mataripe. Aí, em 1974, eu não sei por quê, hoje eu ainda queria saber por quê, não tem sentido, eu ia para Curitiba ser o responsável pelo mesmo trabalho que eu tinha feito em Paulínia. Aí a Petrobras resolveu fazer uma refinaria em Curitiba, e eu seria o responsável para fazer esse trabalho em Curitiba, e quando terminasse, ser o superintendente da refinaria de Curitiba. Mas a minha mulher, eu levei ela lá, e ela não gostou muito do clima da cidade. Era muito frio, aí eu desisti. Aí apareceu uma proposta para eu trabalhar na área petroquímica. Uma construção, que eu nunca tinha trabalhado em construção, em uma das indústrias vinculadas àquele complexo da Copene. Não da Copene, era uma das indústrias vinculadas à Copene. Então eu fui para a Bahia. Não gostei muito, eu não gosto de obra, eu gosto é da parte de produção da refinaria. Nós terminamos, montamos o negócio. Aí quando terminou eu fui convidado para ser diretor-superintendente de uma entidade privada, mas aí eu briguei com o dono, fiquei alguns meses só. Porque não dava, o que ele queria eu não queria, não deu. Não dava, a ética de trabalho dele não era a minha ética, era diferente. Não vou citar nome nem nada. Eu saí, foi até um esquema meio tumultuado a minha saída. Aí me convidaram novamente para voltar para Paulínia, no mesmo cargo que eu tinha largado. Isso já em 1979. Quer dizer, eu tinha saído em 1974, aí voltei em 1979. O que eu encontrei lá foi uma beleza, tudo melhor. Mas perdi tempo na minha carreira. Porque nesse meio-tempo eu era o segundo lá de Paulínia. Nesse meio-tempo o superintendente já tinha saído, outro já tinha subido. Agora já tinha subido um terceiro. Então, no fim, eu, que poderia ter sido o segundo superintendente em Paulínia, eu fui ser o quarto, isso já numa terceira volta. Aí, como eu disse, em 1979 eu voltei para Paulínia sendo superintendente de produção. Aí em 1985 eu fui convidado para ser superintendente da refinaria de São José dos Campos.

UNIDADE REFINARIA DE PAULÍNEA (REPLAN)

A Refinaria de Paulínia estava em ampliação, em duplicação, ela foi duplicada, já estava com uma unidade de geração nova, mais uma. E como sempre uma refinaria muito bem estruturada.

GREVE (1983)

Mas nesse meio-tempo, entre 1979 e 1985, aconteceu um outro fato que me marcou muito na Replan. Foi uma greve, foi a primeira grande greve na Petrobras. A greve de 1983. Uma greve realmente muito pesada, muito forte. Traumatizou muito, houve 150 demissões nessa época. Inclusive gente que hoje é deputado federal. Foi a época forte que o sindicalismo começou a se formar. A CUT, eu acho que era o começo do PT também, porque o PT foi fundado no final da década de 70. Inclusive uma pessoa que depois virou até prefeito de Campinas, que foi líder da greve, que foi o Jacó Bittar. Mas foi uma greve que marcou muito, marcou muito a Replan por causa disso: porque ela nunca tinha tido uma greve assim.Traumatiza. Porque tem muita demissão. 150 demissões. 10% do pessoal foi embora. Foram mandados embora. Não, que foram mandados eu sei, mas isso aí é como eu estou dizendo, fica marcado, aquilo é uma cicatriz de cura difícil. Mas já era uma época democrática, a gente já estava, na realidade, eu acho que em 1983, eu não me recordo quem era o presidente.

É, talvez fosse o Figueiredo. Então já era aquela fase em que ele estava em transição, já querendo amenizar as coisas. Mas foi um, como é que se diz, foi traumatizante, não é fácil não. Então qualquer coisa, assim, operação radical, porque aí é uma coisa de cirurgião. Uma coisa é uma pessoa de mau desempenho, você manda embora e não tem problema. Outra coisa é você mandar 100 pessoas, 150 pessoas. Em massa. E nisso, é como eu digo, é muito difícil você fazer uma relação para mandar embora 100, 150 pessoas, e não cometer, pela ótica de alguém, que não houve injustiça. Sempre há alguém: “Ah, mas isso é injusto. Esse cara, que é vagabundo, não foi, esse foi!” Entendeu? É muito difícil.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Você trabalha num ambiente, porque refinaria tem uma coisa bem característica, que é o seguinte: uma coisa é você sair de casa e dizer: “Olha, eu trabalho no banco.” Aí você vai na avenida - aqui no Rio - Rio Branco. E vai no banco e tal. Isso é uma coisa. Outra coisa é você sair de casa, andar 30 quilômetros todos os dias, trabalhar com 1.000, 1.200 pessoas naquele local, e só vocês, não tem mais nada em volta. Isso entra dia, sai dia, entra semana, sai semana. Então o pessoal se integra muito e vive muito um a vida do outro. A amizade é mais forte porque não existe nada externo atuando durante aquelas oito horas de trabalho. Aliás, até mais de oito, porque tem o intervalo do almoço.

Você tem que trabalhar sob pressão, sob tensão. Porque a ordem, quando veio é o seguinte: “Olha, eu quero essa lista para depois de amanhã!” É coisa assim desse tipo: “Eu quero para semana que vem!” Quer dizer, você não tem muito tempo. E eu me lembro que você dá ordem para baixo. Quer dizer, é complicado. O próprio pessoal que vai escolher ali, fica, fica, não é normal. E isso perdura. Outra coisa, o pessoal que trabalha de turnos, que são os operadores, eles levam uma vida quase entre eles. Porque, olha, enquanto chega de noite e todo mundo vai para o teatro, ou vai tomar uma cervejinha no bar e tal, eles estão trabalhando, às vezes, chega no domingo e o pessoal vai para praia, eles estão trabalhando. Quer dizer, o horário de trabalho deles é um horário anormal, porque uma hora ele está trabalhando de 8 às 16, chega a conviver com o pessoal do próprio grupo deles que estão naquele horário também. Então eles marcam pescaria, marcam isso, marcam aquilo outro, porque não adianta marcar com outras pessoas. Porque o cara diz: “O que eu vou fazer segunda-feira, de dia?” Não dá, está certo? Aí quando algum desse grupo é eliminado dessa maneira, assim, não muito normal, isso também traumatiza. As mulheres começam a se dar, aí o cara começa a passar aperto financeiro porque ele foi demitido. É complicado, é muito complicado. Então isso marcou muito a refinaria nessa, vamos chamar, nessa segunda passagem, que foi de 1979 até 1985, essa greve de 1983.

É muito difícil porque na época o sindicato tinha, isso é minha ótica, eu não posso falar pelo sindicato. Mas a minha ótica é que eles tinham projetos políticos, projetos políticos de implantar o socialismo. Eu acho que na época o Muro de Berlim não tinha caído ainda. E coisas desse tipo. Então eles mesmos endurecem nas negociações em termos de não abrir mão de nada, porque aquilo são objetivos que são fixados para o crescimento do movimento. Eu não condeno eles não, porque é muito difícil. Você tem que estar lá dentro para saber o está se passando. Agora, já do lado de cá, você não pode também estar dando tudo. Porque eu me lembro que a Petrobras durante uma certa época, ela era até criticada de ser uma empresa que dava tudo. Era décimo-segundo, décimo-terceiro, falava-se até de décimo-quarto. Você vê, os sindicalistas, na Replan, eu tive época que eu tive seis, sete, oito sindicalistas liberados, tudo pago. Eles recebiam tudo. Até horas extras que o grupo recebia, eles recebiam também. Eles recebiam também, mesmo sem trabalhar. Quer dizer, muitas facilidades, e bota mais isso, bota mais aquilo. E cada ano a pauta de reivindicação era pedindo pautas absurdas. Eu sempre disse: “Vocês vão perder isso aí!” E perderam. O mundo dá volta. Chega um determinado ponto, isso é um exagero. Não pode ser uma coisa assim muito diferente do resto da sociedade. A sociedade, eu acho que ela tem que crescer de uma maneira mais ou menos uniforme. Você não pode ter um grupinho ali cheio de privilégios e os outros não. Então essas coisas são muito complicadas. Mas cada um tem que saber quais eram os objetivos, cada um tem os seus objetivos. Eu não sei quais eram os objetivos. Agora, a massa-de-manobra é que perde, a massa-de-manobra está ali.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Em 1985, então, eu fui para a refinaria de São José dos Campos ser superintendente. Aí já a primeira vez que eu fui o superintendente geral, porque antes eu era o de produção. São José dos Campos, na época, era uma refinaria nova, moderníssima. Para nós tinha uma facilidade, porque ela é pertinho da cidade. É uma beleza, você pega o carro e num instante está lá, é uma beleza. Cidadezinha muito boa de se morar, São José dos Campos. O superintendente inclusive tem influência social. Eu me lembro que eu saía com o prefeito. Qualquer obra que o prefeito ia inaugurar, ele me chamava. E eu ia lá, fazia discurso, essas coisas todas.

ACIDENTE DE TRABALHO

Mas agora, a refinaria tinha um trauma muito grande. Porque anos antes tinha havido um acidente terrível lá. Isso uns dois anos antes de eu entrar lá. Houve um vazamento de gás e morreram, eu acho, umas sete ou oito pessoas. Morreram intoxicadas. Até o médico da refinaria, que foi atender o pessoal, morreu também. Então aquilo marcou. Essas coisas marcam. São as emoções que marcam a vida de cada um. E aquilo marca de uma maneira muito forte, porque, primeiro acontece com os amigos da gente, depois, às vezes, cada um fica metendo na cabeça, achando que ele também um pouquinho de culpa na coisa por algum motivo. Por alguma coisa que às vezes não tem nada a ver. Não é isso? “Não, por que eu não fiz isso antes? Por que eu?” Entendeu? Então isso traumatiza muito o ambiente. Então isso tinha acontecido não na época do superintendente que eu substituí, tinha acontecido na época do anterior. Eu fui o terceiro superintendente lá, e tinha acontecido na época do primeiro. Então, o grande trabalho do segundo, principalmente do segundo, que foi o que eu substituí, foi tentar tirar isso aí. Eu também, meu grande trabalho lá foi isso, foi mostrar para o pessoal que eles eram uma turma muito boa, uma turma muito capaz. Porque isso fez o moral de todo mundo cair. O pessoal se sentia assim sem aquela. E eu tinha vindo de uma refinaria vitoriosa, uma refinaria em que tudo dava certo. Sempre deu tudo certo na Replan, é uma refinaria que tudo dá certo, tudo que se faz dá certo, tudo é grande. Então é um pessoal que já tem essa mentalidade de vitorioso, e isso é muito importante, porque isso é que faz a roda rodar. Então o grande trabalho meu lá foi esse. Levantar o moral das pessoas.

UNIDADE REFINARIA HENRIQUE LAJE

Voltando ao tempo de 1985 a 1987, que foi o tempo que eu fiquei na refinaria Henrique Lajes, que é a de São José dos Campos, como eu estava falando, que é uma refinaria moderna, muito moderna, bonita, muito bonita, bem localizada. De todas que eu trabalhei, foi a de localização melhor. Mais do que Paulínia, porque a localização em termos do empregado morar, que ela é muito perto de São José dos Campos.

UNIDADE REFINARIA DE PAULÍNIA

Em termos geoeconômicos, eu acho que a de Paulínia é mais bem localizada. Mas ela é perto, então dá para você chegar, não precisa sair tão cedo de casa e chega mais cedo em casa. Então tem esses aspectos positivos. E é uma refinaria que também tem um quadro técnico de empregados, muito bom, muito bem formado, mas que tinha esse probleminha de auto-estima.

ACIDENTE AMBIENTAL

A refinaria de tinha um probleminha de auto-estima gerado por um acidente em que eles não tiveram culpa. Foi um acidente, paciência. É claro que todo acidente tem causa, mas isso aí eu acredito que isso já foi eliminado. Isso, o quê, já faz uns 20 anos desse acidente. E hoje é uma refinaria realmente de ponta da Petrobras. Um vazamento de gás, e um gás realmente que a pessoa inala e nem sente. Esse é que é o problema. Foi um acidente grave. E na época - isso é gozado - que eu estive lá, eu fui morar num prédio que quem morava nele, e morava muita gente da Embraer nesse prédio, e um dos moradores desse prédio se tornou presidente da Petrobras. Foi o Ozires Silva. Então eu fiquei amigo do Ozires Silva lá, batia um papo com o Ozires Silva. Ele depois se tornou presidente da Petrobras, foi pouco tempo, mas foi presidente da Petrobras. Eu fiquei pouco tempo, eu gostava de São José dos Campos, gostava da refinaria, mas o meu coração sempre foi da Replan. Esse é o meu problema, eu sou um replaniano de coração.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Um dia me ligaram do Rio e perguntaram se eu queria voltar para a Replan, como superintendente. Porque eu não tinha sido ainda, tinha sido superintendente de produção. Aí eu digo: “Eu aceito!” E outra coisa: a minha filha mais nova, nessa época ela tinha uns 14 anos, quando eu fui para São José dos Campos, e mulher nessa idade tem aquelas amigas que as amigas são só aquelas amigas, não existem outras. São as confidentes. É quando ela vai virando mulher, deixa de ser infantil e vai virando mulher, e aquelas amigas que ela tinha em Campinas o tempo todo, aí quando ela foi para São José ela chorava muito. E quando apareceu essa oportunidade, eu pensei muito nisso. E também, além de voltar para o lugar que eu mais gostava, apesar de gostar muito da Revap, em São José dos Campos, mas meu coração era mais da Replan. E meu apartamento estava alugado, eu voltei para o meu apartamento. E tinha o caso da minha filha, que as amigas dela todas em Campinas. Aí eu voltei para a Replan em 1987.

RELAÇÕES DE TRABALHO

Em 1987, aí fiquei 6 anos como superintendente, até 1993. Nessa época não teve nenhum fato significativo. Nós tivemos muitos problemas de relacionamento com o sindicato. Isso aí foi 6 anos. É, mas não assim ao ponto de ter uma greve daquela de 1983. Isso nós não tivemos. Tivemos greves, muitas greves, muito entrevero com o sindicato, isso eu lembro que nós tivemos. E coisas desse tipo. Eles chegaram a cercar a refinaria e a refinaria parar. E eu dizia: “Eu vou colocar para funcionar!” Cheguei a colocar gente, levei de helicóptero para a refinaria. Os caras ficaram loucos da vida naquele dia. Entrava de helicóptero com operadores que eu pegava de outros lugares. Mas sempre com respeito, sempre com respeito. Eu sempre achava que é um compromisso que eu tenho. Eles tinham os seus objetivos. Eu tinha que cumprir a determinação da empresa, que eu era o representante a empresa. E tentar minimizar o máximo para a população a falta de combustível. Porque era uma refinaria imensa. Então a parte de entrega de produtos, isso aí nós nunca deixamos de fazer, nunca deixamos de fazer. Agora, tem uma unidade de processo complicada. Aqueles operadores ficavam oito horas, daqui a pouco ficava mais oito, ficava mais oito, iam cansando. Como não tinha reposição, então às vezes não tinha outra alternativa, tinha que parar por segurança. Outras vezes a gente arrumava gente de fora, tentava segurar uma coisinha aqui, outra ali. Mas a parte de escoamento de produto, sempre que a gente sabia que estava pintando uma possível greve, quando chegava o mês de setembro, que é o mês das negociações salariais, a gente já começava a encher os tanques. Enchia os tanques ao máximo com produtos, exatamente para a gente ganhar tempo em termos de, mesmo que a refinaria parasse, a gente distribuir com tranqüilidade, para não faltarem produtos. E nesse meio-tempo o pessoal chegava a um acordo. Porque não era a gente que negociava, a refinaria não negociava, a negociação era sempre localizada no Rio, porque envolvia reivindicações salariais, envolvia reivindicações de avanços sociais. Então não cabia a nós. Nunca era problema. Eu nunca tive uma greve na Replan, e eu acredito que em outra refinaria, eu não sei, por problema específico da refinaria. Porque eu como superintendente tomei uma decisão, tomei uma atitude, e, vamos dizer, os empregados não gostaram, o sindicato não gostou, e baseado naquilo teve uma agressão. Nós nunca tivemos, eu nunca tive. Então, sempre foram movimentos ditos reivindicatórios, movimentos mais amplos, e no fim às vezes a gente até concordando com algumas coisas, e até usufruindo. Porque quando o sindicato pedia aumentos muitos altos, ou pedia certas vantagens, a gente como empregado, ainda mais eu, como empregado concursado, empregado da empresa, eu podia me beneficiar daquilo, mas no caso aí não cabia a mim entrar nisso. Eu era o representante da empresa ali. Como representante da empresa eu tinha que adotar as medidas que a empresa tomava. Cabia a mim, se alguma decisão na alta direção fosse tomada e eu achasse que ia criar problemas, cabia a mim falar, pegar o avião, vir aqui para o Rio: “Olha, assim não dá, vamos tentar alterar.” Quer dizer, essa que era a margem de ação que eu tinha sobre esses pontos. Mas não deixar de cumprir nenhuma decisão da empresa. E também a empresa respeitava muito a gente no aspecto: “Olha, segura a refinaria até o ponto que vocês achem que dá para segurar!” Eu nunca recebi uma ordem: “Segura a qualquer custo!” Pondo em risco o patrimônio da empresa e pondo em risco a vida dos empregados. Agora, eram entreveros, eram entreveros. Era assim mesmo. Então nessa época a refinaria tinha muito desses probleminhas de relacionamento, vamos chamar, mais institucionais.

UNIDADE REFINARIA DE PAULÍNIA - REPLAN

E a refinaria de Paulínia foi se ampliando. Foram construídas unidades novas, craqueamento catalítico novo, unidades de coque, mudança de toda instrumentação. Que quando ela foi fundada em 1970, aquela instrumentação de primeiro mundo, que era eletrônica, nessa altura já não era mais. Então, ela, como as outras, todas passaram, como é que se diz, para instrumentação por computador. Hoje tudo é por computador. Você chega numa sala de controle e você só vê computador. Você não vê mais aqueles painéis cheios de instrumentos, como era antigamente. Hoje é tudo por computador. Um pessoal superespecializado. Precisa de menos gente, porque o computador é bem mais inteligente do que o instrumento convencional, porque ele é programado, então você programa. Ele não é inteligente, o inteligente é quem programa, mas ele tem programas que fazem ele: “Olha, se isso aqui acontecer, faz aquilo”. Quer dizer, ele vai atuar dessa maneira, assim, num programa racional e que evita, às vezes, erros. Então, a refinaria nesse aspecto. Foram construídos oleodutos. Todo escoamento, antigamente era tudo lá. Era caminhões, filas de caminhões e milhares de caminhões por dia que passavam pela refinaria. Milhares. Vinha, acho que cinco mil, seis mil, não sei, só sei que eram milhares de caminhões. Depois passamos a escoar a produção por trem. Então ia para Ribeirão Preto, Brasília, esse negócio ia por trem, muita coisa ia por trem. Hoje é oleoduto, hoje a refinaria produz, estoca, gasolina diesel, essas coisas todas, e vai tudo por tubulação debaixo da terra, vai por esse interior do país até a capital.

PROCESSOS DE TRABALHO

O petróleo chega de navio, em São Sebastião, atraca, aí eles bombeiam do navio para os tanques - que é cheio de tanques em São Sebastião - e daí as bombas pegam dos tanques e mandam para as refinarias. Manda para São José dos Campos, manda para Paulínia. Tudo por tubulação debaixo da terra. Isso, petróleo. Aí, quando chega na refinaria, o que a gente faz? Aí é a mesma coisa: a bomba tira, aí a gente limpa, às vezes mistura petróleo. Aí depende da programação de produção. E aquilo que está preparado, programado para ir para as unidades que a gente chama de processo, que são as unidades transformadoras, o que elas vão fazer? Vão pegar petróleo e transformar em quê? Gasolina, esse gás liqüefeito de petróleo, óleo diesel, óleo combustível, e vai por aí afora. Faz tudo lá em Paulínia. E aquilo é um processo contínuo. Não é assim: “Vamos produzir gasolina!” E vai gasolina; “Vamos produzir diesel!” Não é assim, o processo é contínuo. Ao mesmo tempo você está produzindo tudo, você está produzindo tudo ao mesmo tempo.

DISTRIBUIÇÃO

Então a gasolina, o óleo diesel é armazenado nos diversos tanques de produtos. Aí como é que você faz, como que você tira aquilo de lá? Aquilo tem que ir para um posto de gasolina, você chega no carro e abastece. Como que chega no posto de gasolina? Aí, por exemplo, para regiões mais perto, chega o caminhão, esses caminhões-tanque. Não, não. Isso aí já não é nós. Aí mandamos para os tanques das distribuidoras que ficam ali perto de Paulínia. Então a gente manda para a BR Distribuidora, manda para a Shell, manda para a Esso. Gasolina que manda do nosso tanque para o tanque da distribuidora. Geralmente aí é por cima mesmo. Aí depois chegam os caminhões e abastecem. Chega um caminhão daquele, aí a companhia distribuidora é que põe no caminhão-tanque, e o caminhão-tanque é que leva para o posto de gasolina, você chega no carro e abastece. Esse é o esquema, vamos chamar, perto da refinaria. Quando é mais longe, o caminhão leva para mais longe, ou então vai de trem, ou então vai pelo oleoduto. Que é o caso de Goiânia, essas regiões mais longe, Ribeirão Preto. A gente manda tudo por tubulação. Lá eles têm os tanques, recebem, e aí repete a história.Uma tubulação que vai de Paulínia até Goiânia. É, vai uma e vai passando as diversas cidades. Lá você vai tirando. O diâmetro dos tubos depende da quantidade de produto que você quer mandar. Se você quer mandar pouco, o diâmetro é pequeno, se quer mandar muito, é maior. Eles são dimensionados para você mandar uma certa quantidade por mês. Porque o pessoal sabe: “Aquele mercado ali é mais ou menos tanto assim.” Então tudo é dimensionado de acordo com isso.Tudo é calculado. Aquilo você só precisa cuidado na hora de encher no início, depois que está tudo cheio acabou, aquilo ali é perfeito. Você vê, o nosso coração não manda sangue para tudo que é lugar? É a mesma coisa. Paulínia recebe de São Sebastião.

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO

Teve uma reorganização administrativa muito grande lá em Paulínea, teve essa inauguração da casa de controle centralizada. Porque antigamente era o seguinte: a refinaria tem várias unidade industriais, cada uma opera e pára sozinha, independente. É interligada, mas considerada uma unidade autônoma. E cada uma tem a sua casa de controle. Aí nós fizemos uma centralizada, um prédio para controlar todas, independente da distância que ela tivesse lá. Isso é um avanço tecnológico que essa instrumentação já por computador, moderna. E aí para tirar o pessoal da área, porque o pessoal no começo fica muito na área para ver se não está vazando, tudo isso, então em tudo foram colocadas essas filmadoras, tipo esses esquemas de segurança que você tem em casa, nos prédios. Então você põe naqueles pontos lá e a imagem vai tudo para a casa de controle centralizada. Então qualquer vazamento, qualquer coisa diferente, o pessoal já vê e já toma suas providências. Então é um esquema muito moderno.

FAMÍLIA

Você vê como é, a mais velha, como eu te falei, teve uma época que eu voltei para a Bahia, que eu estava a primeira vez em Paulínia, aí eu voltei para a Bahia para trabalhar na áreas petroquímica, aí ela encontrou um rapaz, começou a namorar com um rapaz, no fim casou com o rapaz e hoje mora na Bahia. A mais velha. E essa cujas amigas são todas de Campinas também ficou em Campinas e resolveu: “Ah, eu vou morar um tempo na Bahia!” Resolveu ir para a Bahia, casou também. Então foi morar na Bahia. Então são as duas que me deram netos. Que a mais velha já me deu três netos, e a mais nova me deu uma neta há pouco tempo.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Então você vê que no mundo a gente volta, volta, volta e volta para o lugar de origem. Agora, na minha vida particular é o seguinte: bom, como eu te falei, eu fiquei na Replan como superintendente de 1987 até 1993. Em 1993 me chamaram para vir para o Rio, para ser superintendente geral do Departamento Industrial.

CASAMENTO

Eu não era muito chegado a vir morar no Rio, mas só que tinha acontecido um fato na minha vida e dessa vez eu aceitei. Eu tinha me separado. Exatamente em 1993 eu me separei. Decidimos nos separar no início do ano, foi oficializado em março, e neste mês me convidaram para vir para o Rio.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Eu sempre preferia ficar na Replan mesmo: “Ah, prefiro ser superintendente da Replan do que vir aqui para o Rio!” Eu sempre dizia isso para o pessoal. E aí vim para o Rio em 1993. Ser superintendente geral do Departamento Industrial. Ser superintendente geral do Depin, cuja função era coordenar o conjunto de todas as refinarias. Aí eu fiquei o resto de 1993, fiquei 1994 e em 1995 eu me aposentei. Quer dizer, fiquei dois anos e pouco no Departamento Industrial. Como eu já tinha bastante tempo, eu já estava com 37 anos de trabalho na Petrobras, e houve um movimento de incentivo, aqueles incentivos de que a Petrobras dá para sair. Então praticamente a minha geração saiu toda nessa época aí. Também era mudança de governo, foi quando o Fernando Henrique assumiu pela primeira vez. E eu resolvi sair, isso foi em 1995. Mas eu sempre dizia o seguinte: o tempo que eu fiquei aqui, quer dizer, em termos assim de posição na empresa, era uma posição mais elevada, porque acima de mim só a diretoria, né, só o diretor. Mas eu sempre dizia o seguinte: eu me sentia muito mais poderoso. Sentia que tinha o poder quando era superintendente lá na Replan, do que como superintendente na Depin. Eu disse: “Lá eu sou o número 1, lá eu sou o número 1, lá o que eu falar é lei!” Aqui você está num prédio cheio de diretores, assessores, chefes de departamento. Quer dizer, você não sente, realmente não sente aquela sensação de poder, aquele negócio. Aí um dia desses, eu até visitando um amigo meu que é superintendente da refinaria. Ele disse: “Me lembro quando você falou isso e tal: Que a sensação de poder que um superintendente tem é maior do que!” Aqui é para pedir um cargo, é um processo, principalmente na minha época, é não sei o quê. Então eu ligava para o secretário: “Eu quero um cargo aí, eu quero não sei o quê!” Acabou, encerrou o assunto, estava resolvido. “Tchau!”

CASAMENTO

Pois é, então, como eu disse, eu me separei. Aí o fato de eu ter me separado facilitou muito a minha vinda para cá, de eu ter aceitado vir para cá. Eu disse:“Bom, me separei, tal.” Aí vim para cá, isso em 1993. Aí um ano depois, em 1994, eu conheci a minha atual esposa. Não conheci, conheci novamente, porque ela tinha sido casada, que ela estava já separada, com um engenheiro da Petrobras que trabalhou em São José dos Campos na época em que eu estava lá. Então eu a conheci quando eu fui superintendente lá em São José dos Campos, na Revap, no período de 1985 a 1987. Então depois que eu voltei para a Replan, anos depois ela se separou, e eu me separei em 1993. Aí eu vim para cá. Então eu viajava muito, eu vivia pendurado em avião, porque era muita refinaria para visitar. E numa dessas idas a São José dos Campos, então na casa de um amigo comum, ela estava lá. Então conversa para cá, conversa para lá, então hoje ela é minha atual esposa.

COSTUMES

Quando eu me aposentei, como eu disse, ela morava em São José dos Campos, aí quando eu me aposentei, em 1995, aí eu fui para São José dos Campos. Aí fiquei lá. Eu me aposentei em maio de 1995, então fiquei o ano de 1995 todo lá. E aí nós fizemos uma viagem ao Nordeste. Eu fui a Fortaleza rever meus irmãos, fui à Bahia, onde minhas filhas moravam. Aí eu disse para ela: “É muito melhor morar numa cidade de praia, cidade de praia é outra coisa. Ainda mais eu que estou aposentado, que tenho muito tempo. Cidade de praia é muito melhor. Que tal a gente morar em Fortaleza?” Meu sonho era voltar para Fortaleza. Mas aí acontece uma coisa que mudou muito a minha vida, que foi o seguinte: ela já participava de um grupo em São Paulo chamado de Pró-Vida. Não sei se você já ouviu falar disso?

Pois é. Então ela já era, vamos chamar, aluna da Pró-Vida. Eu não sabia nem o que era isso. Então é uma entidade que tem como propósito o desenvolvimento da mente, a instalação de um mundo bem melhor, fazer com que a gente acelere o nosso desenvolvimento, o nosso crescimento espiritual. E aí veio uma coisa que eu tenho que me remontar a minha infância. Que eu tinha falado que dos 10 aos 14 anos eu fui levado para Recife, quer dizer, eu fui tirado da família e fui levado para Recife. Fiquei quatro anos estudando num colégio Marista. Muita religião, era missa todo dia, comunhão todo dia. Fiz as contas: “Olha, eu não preciso mais de missa, nem comungar o resto da minha vida.” Mas além dos 13 irmãos da minha família, quer dizer, dos outros 12 irmãos que eu tive, eu tive mais dois que morreram com dias, morreram assim com 15 dias, não sei. E eu sempre gostei de reflexão, assim, de meditar sobre o porquê da vida, o que a gente faz aqui. “Será que a gente vem aqui só para todo dia acordar, comer, assistir televisão, dormir?” Então eu sempre fui assim, desde garoto. E eu sempre questionava também como é que uma pessoa que nasce com 15 dias, como é que fica depois? Esse negócio de céu, inferno, não sei o quê. Então eu questionava muito essa coisa, nunca aceitei muito tranqüilo a explicação que a Igreja Católica - que a minha família é toda católica - dá para essas coisas. Eu acho a explicação dela muito simplista. Não, eu acho que tem alguma coisa por detrás disso, então eu sempre, durante a minha vida inteira, assim, quando eu estou sozinho, eu comigo mesmo, eu sempre gosto de pensar: “O que eu estou fazendo aqui? Qual é a razão da vida. Será que morreu, acabou; será que morreu, não acabou? Se morreu não acabou, vai para onde? De onde a gente veio?” São essas coisas meio filosóficas. E eu digo: “Olha, algum dia eu vou querer entrar em alguma coisa dessa.” Quase que uma vez eu entro na Rosa Cruz por causa disso. Mas o meu trabalho na Petrobras não permitia muito, porque eu tinha que acordar cedo, ir para a refinaria, voltava tarde, viajava. Aí, quando eu me aposentei, eu digo: “Bom, agora eu vou procurar isso aí.” E coincidiu que a minha atual esposa -, quando eu me aposentei a gente já vivia há um ano então ela fazia parte da Pró-Vida, que é em São Paulo. No Rio não tinha, agora já tem. Então eu comecei a fazer os cursos da Pró-Vida, comecei a fazer os cursos, gostando, achando bacana. Começando a dar explicações que eu achei mais aceitáveis para o meu raciocínio. Então essa possível ida para Fortaleza ficava meio complicada por causa disso, porque para ir para lá a gente tinha que largar essa parte aí.

CIDADE

Então ela como já tinha morado em Santos, e tinha um irmão que morava em Santos, então veio a idéia: “Por que a gente não vai para Santos? Aí a gente resolve tudo. Tem praia, perto de São Paulo. Quer dizer, não vai ser estranho para você, porque você já morou lá!” Que eu tinha convidado para ir para Campinas também. Ela falou: “Não, Campinas não!” “E já tem um irmão. Eu é que vou arriscar, porque eu não sei, eu acho aquela terra quente demais!” Porque quando eu ia lá para Cubatão eu achava aquilo muito quente.

É muito quente. Mas você se acostuma. No primeiro ano realmente. Mas aí é uma cidade linda, é uma cidade de uma praia maravilhosa, aquele jardim. Só de olhar aquele mar você... E outra coisa: tranqüila, dentro desses padrões de violência que a gente vê por aí. Mesmo cidades menores como Campinas, cidades do interior de São Paulo, têm muita violência. São Paulo nem se fala, Rio nem se fala. Lá não, lá é tranqüilo, você uma hora da manhã você anda naquelas avenidas à beira-mar sozinho e não acontece nada.

COSTUMES

E eu gosto muito de andar, apesar de eu aqui estar todo, e isso não é normal. Meu normal é bermuda - e para a mim uma das maiores invenções do século é a bermuda com esses bolsões de lado -, chinelão e camiseta. Este é o meu traje. E aí com esses bolsos aqui eu ponho carteira, ponho isso, aí, olha. E lá em Santos com esse traje você entra em qualquer lugar: você vai no médico, você vai assim; você vai no banco, você vai assim. Então eu digo que é bom, cada vez a gente gosta mais. Então, é quente? A gente liga o ar condicionado e resolve o problema. Então hoje, o que eu faço? Porque um dos grandes problemas, que mesmo quando eu ainda estava na ativa na Petrobras, que eu via, era aquele pessoal se aposentando, inclusive muito cedo, muito novo. Eu tive empregado na Replan que se aposentou com 39, 40 anos, um absurdo. Aí o camarada às vezes pega aquele dinheiro que recebe como indenização e resolve ser empresário: quebra a cara. Joga o dinheiro fora, fica sem dinheiro, fica sem ter o que fazer e aí vem outros problemas: é bebida, é briga com mulher, é separação. É o que tem muito por aí, está certo? Então eu disse: “Olha, eu tenho que preencher o meu tempo!” Eu não quero mais trabalho, eu saturei com esse negócio de acordar cedo. Adoro acordar tarde e dormir tarde. Hoje eu durmo duas horas da manhã, acordo às nove, nove e meia, por aí. Então Santos para isso é muito bom: você acorda e vai andar na praia. Aí você anda. Eu ando sete, oito quilômetros todo dia na praia. As ações da Petrobras estão bem.

LAZER

Todos os dias eu ando. Aí você volta. Como eu já acordo nove, nove e meia, quando volta toma um banho e já está na hora do almoço. Aí você almoça. Eu gosto de mexer com ações, ai í eu saio e vou lá para o Gonzaga. Tem um banco lá que tem um terminal. Mesmo que eu não aplique, eu fico me divertindo lá, converso com um, converso com outro e tal. Depois que falaram dessa descoberta de Sergipe, deu uma subidinha. Porque o grande problema agora do mercado de ações é essa guerra aí do Bush, que está deixando todo mundo louco. De noite eu vou para a Pró-Vida. Todas as noites nós temos um encontro. Eu vou porque quero, não é obrigado a ir, eu vou porque eu gosto. Então nós temos uma sede em Santos, que é ligada em São Paulo por videoconferência, então é só ligar a videoconferência. Então você tem palestra, tem isso, tem aquilo. Com uma sede muito bacana, com ar condicionado, uns amigos muito bacanas. E ali a gente filosofa, assiste aula, faz exercício. A Pró-Vida tem um clube maravilhoso em Araçoiaba da Serra, que é perto de Sorocaba. Mas é maravilhoso. Eu me lembro que quando eu morava em Campinas, eu dizia: “Olha, não pode existir um clube melhor do que essa Hípica de Campinas!” Ah, mas a Hípica não chega nem perto. Então é um clube, inclusive ele é grande, o pessoal tem casas dentro do clube. Eu tenho uma casa lá, eu passo férias lá, passo umas semanas lá. Tem guardas, é bem conservado, a manutenção é barata, você tem aulas lá também, tem ginásio. Eu jogo tênis, tem tênis; eu gosto de nadar, tem piscina.

Então quer dizer, nesse aspecto de estar levando uma vida pós, como se diz, pós-aposentado, eu estou levando uma vida boa. Então eu sou uma pessoa que tem uma cabeça muito boa. Eu não tenho doença, eu não sei o que é dor de cabeça, eu não sei o que é comprimido, eu não seio o que é injeção, eu não sei o que é isso.


IMAGENS DA PETROBRAS

A Petrobras, eu acho que não é nem hoje, nem hoje, a Petrobras é, a Petrobras para mim foi uma das maiores coisas que se fizeram no Brasil. Eu não sou assim muito favorável a que tudo seja do governo. Eu acho que o governo não pode, não dá certo. Quer dizer, o governo ter hotel, o governo ter isso, ter aquilo. Agora, o governo tem que ter grandes empresas estratégicas. Quer dizer, eu acho que isso daí pode ficar na mão do governo porque influencia muito. Imagina a Petrobras se não fosse do governo, com esse dólar subindo do jeito que está subindo, um petróleo que sobe e desce de uma maneira incontrolável. O dono ia querer o quê? Ia querer repassar para a população toda vez. Já com o governo dá para você administrar essa coisa de uma maneira como se tivesse alguma coisa para pulsar. Outra coisa: é muito dinheiro, é muito dinheiro. Uma refinaria como Paulínia, eu me lembro na época, era coisa de mais de 20 - quanto era? Não. Eu me lembro que na Replan uma vez eu fiz um levantamento de que se ela fosse uma empresa privada, na época em que eu estava lá, eu acho que ela era a segunda ou terceira empresa do país, era a segunda ou terceira. Era três bilhões de dólares que ela faturava por ano, um negócio desse tipo assim. É muito dinheiro. Quer dizer, é muito poder econômico para um país como o nosso assim. Então, ela ser do governo eu acho que foi uma decisão certa, ela continuar do governo é uma decisão certa, eu acho que ela não devia sair nunca do governo. É como eu disse: apesar de eu não ser um defensor intransigente de que tudo deva estar na mão do governo. Eu acho que o governo tem que cuidar da área social, tem que cuidar é de como o Lula está querendo agora: evitar que gente morra de fome, tem que dar educação, propiciar oportunidade de emprego para o pessoal, cuidar da segurança. Essa é que é a função básica do governo. Mas as grandes coisas assim, tipo Petrobras, eu acho que também cabem estar no governo. Isso eu defendo. E a Petrobras teve sorte porque ela foi bem implantada, ela foi bem fundada, foi bem dirigida. O corpo técnico, quer dizer, entrar só por concurso eu acho uma coisa maravilhosa. Imagina a Petrobras se pudesse entrar sem ser por concurso, como que ia estar como cabide de emprego, aí era uma vergonha. Então, muito bem, se o cara é filho de um político, faz um concurso e passa, não tem problema. Então com isso dá oportunidade a todos os brasileiros, dá oportunidade a quem se esforça, a quem estuda, a quem tem talento. E eu vejo, eu convivi com os técnicos da Petrobras, que são excelentes. Independente de apoio político. Olha, o que tinha de petista que trabalhava comigo em departamento industrial não está escrito. E daí, excelentes pessoas, excelentes técnicos, excelentes brasileiros. Eu acho que não interessa se o cara é do PT, do PSDB, isso para mim não é o importante, o importante é a ética da pessoa, é a seriedade da pessoa, e ele vestir a camisa da empresa. E no fim, já a pessoa no final da vida dizer: “Olha, felizmente eu trabalhei por uma coisa que foi útil para o povo brasileiro!” Porque a gente não pode também pensar só para ganhar dinheiro, isso não é objetivo de vida, eu acho. Eu acho que a gente tem que olhar um pouco aquilo que vai causar benefício para todo mundo. E a Petrobras nesse aspecto eu acho ideal porque ela gera emprego, ela é bem administrada, sempre foi. Às vezes um pouco menos, um pouco mais, mas no geral é bem administrada. Porque no fim quem conduz ela é o corpo técnico, é o corpo técnico constituído por ela que é excelente, é de primeira qualidade.

SUBSIDIÁRIA - PETROQUISA

A Petroquisa, eu trabalhei nela, mas mais em obra. Durante uma obra, quer dizer. Eu nunca trabalhei, assim, vamos chamar, num órgão da Petroquisa. Mas eu tive amigos lá, inclusive o antigo presidente da Petroquisa, que foi fundada agora, trabalhou comigo no Depin, era um dos meus engenheiros no Depin, um rapaz muito bom. Então eu acho que a Petroquisa, a grande função dela é o seguinte: se a Petrobras, através da Petroquisa, não investisse maciçamente nesses pólos, que foi o pólo de São Paulo, o pólo de Copene, do Rio Grande do Sul, e agora está investindo aqui no Rio, no pólo do Rio, a coisa não se viabiliza. Então eu acho muito importante ela, com a presença dela, ela viabiliza. E é uma tecnologia moderna que a gente não pode estar ausente, tem que estar presente. E com o tempo vai passando para os particulares, isso daí não tem problema ficar na mão de particular.

INFÂNCIA

Minha infância foi uma infância maravilhosa, muito diferente da infância de hoje. Porque imagina você morar - eu nasci em 1933, olha bem, você estava ainda se programando para vir para a terra nessa época - numa cidade do interior do Ceará que não tinha água encanada, não tinha calçamento, luz só acendia às seis e cortava meio dia, o jornal vinha de Fortaleza de trem no dia seguinte. Quer dizer, o pessoal recebia o jornal atrasado. E para a meninada? Eu digo os meus dez primeiros anos: na rua, jogando bola, subindo em árvore. Então as portas das casas eram abertas porque não existia violência. Que violência? Não existia isso. A gente até conhecia o nome dos ladrões. Quem era, assim, fora do contexto, era ladrão. A gente sabia o nome. O negócio era de às vezes alguém cruzar com o meu pai e dizer: “Olha, eu vi teu filho lá não se onde!” Então, quer dizer, era assim. Então foi uma infância, como se diz, sem pressão, sem tensão. Eu vejo já os meus netos hoje tudo dentro de apartamento, sai, mas tem que sair assim, não pode sair de sola. Quer dizer, então é uma turma que está sendo criada de uma maneira diferente. Eu acho que a maneira como eu fui criado, apesar de ser num local que não tinha quase nada - imagina 60 e tantos anos atrás o interior do Ceará como é que era -, mas maravilhosa para a gente, para a cabeça da criança, a cabeça que se forma assim. Então hoje eu recordo com muita alegria, com muito prazer. Então talvez, essa maneira de eu ser solto venha disso também.

COSTUMES

Os meus primeiros anos de vida foram soltos. Depois tive 4 anos já um pouco mais com muito controle, mas me deu uma base de estudo maravilhosa, porque estudar 4 anos interno no marista não é fácil. Eu sabia a missa em latim de cor, só para você ter idéia de tanta missa que eu assisti. Na época era em latim. Mas sabia de cor. Aprendi um pouco de francês, porque os maristas são franceses e obrigavam a gente a estudar muito francês. E a gente aprende também, fica sempre dentro da gente, apesar de a gente não concordar, como eu falei, com certas explicações dessas grandes questões da vida. Mas pelo menos fica dentro da gente aquela formação cristã, que é muito importante, aquela formação de agir certo, de evitar pisar nos outros, e se possível, melhor ainda, ajudar os outros, que é a grande doutrina cristã, que todo mundo que se diz cristão segue. Mas fica dentro, um belo dia aquilo acorda.

Eu mudaria muito pouca coisa na minha vida. Uma eu até falei: quando eu estava na Replan a primeira vez, aí eu fui para a Bahia. Eu não faria, isso eu não faria. Porque depois: “Por que eu fiz isso meu Deus?” Olha, é gozado, esses 3, 4 anos que eu fiquei em Campinas a primeira vez, quando eu cheguei na Bahia eu senti que meus valores não eram mais de lá, eram tudo daqui. Eu sou corinthiano, quando o Corinthians jogava eu ficava louco lá na Bahia. Eu não conseguia torcer para aqueles times ali, é gozado. Então são coisas que a gente decide assim sem muita análise. Hoje, filosoficamente, a gente tem explicação para isso. A gente tem que analisar bem os prós e os contras, tal, de uma decisão. Mas no final das contas talvez eu também precisasse passar por esse tipo de experiência, tá certo? Então a gente não pode passar só por experiências boas. É nascer e tudo dar certo! Não é assim. A gente tem que passar também por experiências que não dão certo, aprender com essas experiências, isso é muito importante, que possam servir para nós mesmos e que talvez não sirvam. Bom, essa já não serve mais, porque já não tem como mudar, mas serve para os meus filhos. Quer dizer, quando eles estiverem em situação semelhante eu posso dizer: “Olha, com seu pai numa determinada época aconteceu isso, aconteceu isso, e a análise que eu fiz é essa. Mas fica a teu critério, a decisão é sua.” Mas a gente tem que a prender a respeitar a individualidade de cada um.

SONHO

Olha, eu tenho sonhos: tenho de viver mais. Eu acho que eu vou até os 90 anos. Desde garoto que me dizem isso - andaram lendo as minhas mãos quando eu era mais jovem: “Você vai longe!” Então eu vou completar 70 anos agora em novembro. Olha, eu estou bem: jogo tênis; nado; corro; ando na praia - eu ando mais, não gosto muito de correr, mas ando -; gosto de tomar um chopinho; gosto de um vinho, durmo bem, mas durmo que é um negócio. Tive só um probleminha na próstata, mas já foi tirado. Um probleminha, não, um problemão, mas já foi tirado. Rezo a Deus que tenha sido tirado tudo.

ENTREVISTA

Para mim foi uma beleza, porque, olha, eu estou aposentado desde 1995. São o quê? Nós estamos em 2003, são 8 anos. Eu evito muito ir na Petrobras. Que a gente recebe convite. Quando a gente sai da Petrobras, principalmente quem exercia cargos de direção alta, recebe muito convite, principalmente de empreiteiras: “Ah, vamos lá!” Para abrir porta, o que eles querem é que abra portas. A gente vai numa refinaria, abre uma porta. Eu nunca fui muito chegado a isso. Porque eu me recordo de que quando eu estava na ativa e lá vinha um, sei lá. Não sei, eu quero levar a minha vida.

CULTURA PETROBRAS

Mas eu amo a Petrobras. Eu vou mais quando eu sou convidado à Replan, a essas refinarias que eu trabalhei, quando tem festa. A Mataripe completou, eu acho que foi 30 anos, sei lá, uns 30 ou 50 já, aí fez um festão e me convidaram, eu fui para a Bahia, fiquei num hotel lá muito bacana, junto com aquela turma que há muito tempo eu não via. Quer dizer, é muito bom. São José dos Campos, quando tem uma festa grande, me chama. A Replan também. Então eu recebo as revistas, aquelas coisas, vou acompanhando, acho bacana. Mas ela está no meu coração.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

Até Cubatão, que eu nunca trabalhei lá, mas o atual superintendente trabalhou comigo. Inclusive eu não citei, mas quando eu estava na Replan a Petrobras me mandou para uma missão no Equador, eu fiquei seis meses no Equador. Três meses direto, depois fiquei mais um ano indo uma vez por mês, e somando tudo deu seis meses. E eu levei um grupo de 12 pessoas quando eu fui, e dessas 12 pessoas que eu levei, dois hoje são superintendentes. Aliás, três eram, só que um teve um problema, ele era superintendente na refinaria do Paraná, teve um problema de doença e teve que aposentar. O segundo é superintendente em Cubatão, e o terceiro é superintendente na Gabriel Passos. Então são rapazes maravilhosos, muito bons. E esse de Cubatão joga tênis também, e qualquer festa que tem lá ele me chama e tal. Então é a maneira de eu rever. Porque eu estou afastado realmente. Dos meus amigos atuais, praticamente não tem ninguém da Petrobras.

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